sábado, 7 de julho de 2012

De D. Afonso Henriques até à Crise de 1383-1385

"Sancho, forte mancebo que ficará
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já se experimentará
quando o Betis de sangue se tingia
E o bárbaro poder desbaratará
Do ismaelita rei de Andaluzia
E mais quando os que Beja em vão cercaram
Os golpes de ser braço em si provaram"
 (Lus. III, 85.)



A partir de D. Sancho I  reconquista deixa de ser o único interesse do Reino, ou melhor, a única preocupação. Era necessário agora fazer uma manutenção administrativa dos territórios conquistados: era o inicio da formação da identidade, o desabrochar das linhagens nobiliárquicas, a concretização de uma sociedade estratificada e o respeito à figura do Rei que desde D. Afonso Henriques estava sob tutela papal. Portanto se o nosso Reino é colocado sob a protecção do papado, com sede em Roma, uma das classes sociais que mais necessariamente demonstrava carisma e importância era o Clero. A esta se juntava a Nobreza (proveniente de guerreiros infanções, como as fontes descrevem) e o Povo, a classe que se agigantava em número mas não em privilégios. O principais problemas dos reis que sucederam D. Afonso Henriques foram essencialmente provenientes das sua relações com o Clero, no que toca a atribuição de privilégios, isenção de impostos e administração/tutela de terras. Daí se compreende que os reis D. Sancho I (1185 - 1211), D. Afonso II (1211-1223) e D. Sancho II (1223 - 1247) tenham tido sérios problemas a manter o controlo da classe eclesiástica e alguns tenham sido mesmo excomungados, como é o caso de D. Sancho II. Este ultimo fora substituído (por força politica e não herança da coroa) por D. Afonso III (1248 - 1279), o qual inaugura um reinado com melhores relações com os diferentes estratos sociais (em particular com o Clero), com uma politica de centralização (promulgação de leis referentes à esfera económica, social e civil/crime) e retomando a reconquista, consolidando o território que actualmente dispomos (conquista do Algarve em 1249). Sucedeu a este ultimo rei, D. Dinis (1279-1325), que ficou para a história não tanto por feitos militares como seus ascendentes, mas especialmente por contribuições que prestou à fundamentação da cultura portuguesa: escreveu centenas de cantigas, fundou os primeiros Estudos Gerais do Reino (Universidade em 1290 por requerimento ao Papa em 1288) e ordenou que o português fosse a língua oficial dos documentos (de chancelaria e diocese, se não estou em erro). Apesar da principal fonte literária ser a Biblia, e as Sagradas Escrituras estarem escritas em Latim, D. Dinis deu um enorme contributo para o desenvolvimento da lingua materna e a sua separação com  longínquo latim e com o galaico (relembramos que Galaico-Português é a língua-mãe ou língua-raíz do espanhol e do português).
Não obstante os reinados de prosperidade de D. Afonso III na consolidação territorial do Reino e de D. Dinis na consolidação cultural de Portugal, sucedem reinados de verdadeira aflição do ponto de vista político, bélico, socio-administrativo e economico, é o caso do reinado de D. Afonso IV (1325-1357) e do reinado de D. Fernando (1367-1383). D. Pedro (1357-1367) ficou conhecido pelo homem que deu a Portugal 10 anos de paz, o seu reinado sendo mais conhecido pela vingança que perpetuou aos carrascos de Inês, seu amor, é na realidade um pouco mais complicado que isso. Seu pai D. Afonso IV fica conhecido pelo apoio que deu a Castela na Batalha do Salado (1340) e na expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. No entanto é com D. Fernando que  se começa a sentir os verdadeiros problemas no Reino de Portugal: distúrbios do ponto de vista social, a vida económica do país em acelerada queda, sem ideias, alterando entre anos de paz e guerra (Guerra com Castela, as chamadas Guerras Fernandinas) e sem sucessão. Quando morre D. Fernando, entramos numa crise, a crise de sucessão de 1383-1385.






"Morto depois Afonso, lhe sucede
Sancho segundo, manso e descuidado,
Que tanto em seus descuidos se desmede,
Que de outrem quem mandava era mandado"
  (Lus. III, 91.)

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