"Sancho, forte mancebo que ficará
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já se experimentará
quando o Betis de sangue se tingia
E o bárbaro poder desbaratará
Do ismaelita rei de Andaluzia
E mais quando os que Beja em vão cercaram
Os golpes de ser braço em si provaram"
(Lus. III, 85.)
A partir de D. Sancho I reconquista deixa de ser o único interesse do Reino, ou melhor, a única preocupação. Era necessário agora fazer uma manutenção administrativa dos territórios conquistados: era o inicio da formação da identidade, o desabrochar das linhagens nobiliárquicas, a concretização de uma sociedade estratificada e o respeito à figura do Rei que desde D. Afonso Henriques estava sob tutela papal. Portanto se o nosso Reino é colocado sob a protecção do papado, com sede em Roma, uma das classes sociais que mais necessariamente demonstrava carisma e importância era o Clero. A esta se juntava a Nobreza (proveniente de guerreiros infanções, como as fontes descrevem) e o Povo, a classe que se agigantava em número mas não em privilégios. O principais problemas dos reis que sucederam D. Afonso Henriques foram essencialmente provenientes das sua relações com o Clero, no que toca a atribuição de privilégios, isenção de impostos e administração/tutela de terras. Daí se compreende que os reis D. Sancho I (1185 - 1211), D. Afonso II (1211-1223) e D. Sancho II (1223 - 1247) tenham tido sérios problemas a manter o controlo da classe eclesiástica e alguns tenham sido mesmo excomungados, como é o caso de D. Sancho II. Este ultimo fora substituído (por força politica e não herança da coroa) por D. Afonso III (1248 - 1279), o qual inaugura um reinado com melhores relações com os diferentes estratos sociais (em particular com o Clero), com uma politica de centralização (promulgação de leis referentes à esfera económica, social e civil/crime) e retomando a reconquista, consolidando o território que actualmente dispomos (conquista do Algarve em 1249). Sucedeu a este ultimo rei, D. Dinis (1279-1325), que ficou para a história não tanto por feitos militares como seus ascendentes, mas especialmente por contribuições que prestou à fundamentação da cultura portuguesa: escreveu centenas de cantigas, fundou os primeiros Estudos Gerais do Reino (Universidade em 1290 por requerimento ao Papa em 1288) e ordenou que o português fosse a língua oficial dos documentos (de chancelaria e diocese, se não estou em erro). Apesar da principal fonte literária ser a Biblia, e as Sagradas Escrituras estarem escritas em Latim, D. Dinis deu um enorme contributo para o desenvolvimento da lingua materna e a sua separação com longínquo latim e com o galaico (relembramos que Galaico-Português é a língua-mãe ou língua-raíz do espanhol e do português).Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já se experimentará
quando o Betis de sangue se tingia
E o bárbaro poder desbaratará
Do ismaelita rei de Andaluzia
E mais quando os que Beja em vão cercaram
Os golpes de ser braço em si provaram"
(Lus. III, 85.)
Não obstante os reinados de prosperidade de D. Afonso III na consolidação territorial do Reino e de D. Dinis na consolidação cultural de Portugal, sucedem reinados de verdadeira aflição do ponto de vista político, bélico, socio-administrativo e economico, é o caso do reinado de D. Afonso IV (1325-1357) e do reinado de D. Fernando (1367-1383). D. Pedro (1357-1367) ficou conhecido pelo homem que deu a Portugal 10 anos de paz, o seu reinado sendo mais conhecido pela vingança que perpetuou aos carrascos de Inês, seu amor, é na realidade um pouco mais complicado que isso. Seu pai D. Afonso IV fica conhecido pelo apoio que deu a Castela na Batalha do Salado (1340) e na expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. No entanto é com D. Fernando que se começa a sentir os verdadeiros problemas no Reino de Portugal: distúrbios do ponto de vista social, a vida económica do país em acelerada queda, sem ideias, alterando entre anos de paz e guerra (Guerra com Castela, as chamadas Guerras Fernandinas) e sem sucessão. Quando morre D. Fernando, entramos numa crise, a crise de sucessão de 1383-1385.
"Morto depois Afonso, lhe sucede
Sancho segundo, manso e descuidado,
Que tanto em seus descuidos se desmede,
Que de outrem quem mandava era mandado"
(Lus. III, 91.)
Sem comentários:
Enviar um comentário