Um dos principais aspectos da construção da história é a correntes historiográfica que se usa para a construir, ou seja a metodologia/processo ou registo escrito construtivo que se aplica no desenrolar dos acontecimentos e, de uma maneira mais simples, a teoria subjacente à construção que visa a própria intenção da história elaborada. Historiografia é história, daí a utilização da expressão "debate historiográfico" em vez de "debate histórico". Uma História de Portugal produzida para o conhecimento não-erudito tem uma historiografia por detrás, no entanto a importância dada a tal fenómeno não é nenhuma, pois o aspecto historiográfico não interessa ao leitor comum. Mas apesar de não interessar condiciona, e deste modo é diferente comprar uma história do Fortunato de Almeida de uma história do José Mattoso, pois são protótipos diferentes que estão por detrás de cada uma das narrações.
Os alunos de uma escola x do 12º ano são capazes de compreender a diferença entre Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos como os três heterónimos de Fernando Pessoa e cada um deles representando um estilo diferente. Apesar dos estilos diferentes todos eles se expressam no mesmo campo: a poesia. No caso da História é um fenómeno comum que acontece: a História toda ela é a mesma, uma narração de factos, interpretação de fontes, análise das informações, cruzamento de dados e aproximação ás realidades humanas vividas e experienciadas numa dada época através do olhos do presente (entenda-se presente como o tempo em que vive o historiador, actor principal da construção histórica). Por exemplo de um Oliveira Marques nos aparece como um germanista na sua análise histórica, pois bebe da escola historiográfica alemã, um Alexandre Herculano bebe também da historiografia alemã mas num tempo diferente e por isso não é um germanista mas um romantista, um agente da História Romântica. Ambos contribuíram para a História de Portugal de forma imensa, mas com visões, escolas e ideologias próprias do seu tempo. Um Historiador está completamente imerso nos ideiais do seu tempo, e como tal toda a História está condicionada à ideologia e não existe história neutro, nem mesmo nos manuais escolares. O importante é consciencializar os leitores da história que existe uma relação entre ideologia e historiografia e historiografia e História que condiciona a forma como se escreve a história e de seguida a forma como se lê a História. Deste modo a história não é inocente e como tal deve se ter noção do que se lê e do que se quer ler.
TORGAL, Luis Reis, "História e Ideologia"
BLOCH, Marc , "Introdução à História"
BOURDÉ, Guy "As escolas Históricas"
A historiografia que vamos aplicar no decurso deste bloco é a mais actual e é também aquela que aceita que a História está imersa numa documentação total e numa ideologia condicionante, portanto, de uma certa maneira, é honesta quanto às suas debilidades. Sendo isto uma breve história, é mais que óbvio que a debilidade maior é não podermos construir uma totalização de ideias nem podermos aceder a fontes originais para as interpretarmos. Não deixa de ter um travo ás ideias do Historiador que a escreve...
Para compreender melhor do que se trata a História Nova ou a historiografia dos Nouvelles Annales leia-se os seguintes titulos:
BOURDÈ, Guy, "As escolas Históricas"
LE GOFF, Jacques, "A História Nova"
Le GOFF, Jacques "História e Memória"
GODINHO, Victorino Magalhãe, "A Crise da História e as suas novas directrizes"
MATTOSO, José "A escrita da História: teoria e métodos"
FEBVRE, Lucien "Combates pela História"
NOTA ADICIONAL
A partir daqui a nossa tarefa começou, a do escritor/construtor da história e a do leitor que a vai construindo a par e passo. Advirto para o cuidado das conclusões a tirar, pois não se pretende, dado a historiografia em voga, arranjar apenas respostas. De facto mais perguntas serão suscitadas ao longo da leitura, do que propriamente respostas. A História é uma re-criação, e toda a re-criação tem um travo da imaginação. O que a faz ciência é a sua necessidade e a sua metodologia aplicada para os problemas a que carece dar resposta. Assim a melhor resposta é a sua utilidade, e eu espero que esta seja útil porque é para todos.
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